Adeus
Foto de Rita Carmo"O meu pai anda sempre a magicar com uma ideia. Vou-lhes contar a última que ele diz.Ele diz que quando somos concebidos habitamos na barriga das nossas mães como uma pequena luz perdida num espaço infinito. Não vemos, não ouvimos e flutuamos no silêncio e na escuridão, o tempo não existe. Mas o nosso corpo cresce lentamente e vamos começando a sentir as coisas, a tocar as paredes do nosso mundo. Depois começamos a ouvir sons e a sentir choques que nos chegam do exterior. À medida que vamos crescendo a distância entre nós e esse outro mundo fica mais pequena e o espaço que parecia tão infinito torna-se pequeno demais. E temos que nascer. O meu pai diz que quando nascemos estamos aterrorizados e pensamos para nós mesmos "pronto, a minha vida acabou", mas não é o fim, é apenas o começo. Então chegamos a esta vida. No princípio somos muito pequenos e o mundo parece infinitamente grande, o tempo infinitamente longo mas continuamos a crescer, desenvolvemos os sentidos, a mente, aprendemos de novo a tocar os limites, as paredes do nosso mundo. Mas às vezes através dos sons e sensações deste mundo ainda ouvimos sons e sentimos choques que nos chegam de outro mundo. Temos medo deles e dizemos a nós mesmos "isto é a morte", e quando a morte chega sentimos de novo "isto é o fim". Mas o meu pai acredita que isso não é o fim, é apenas o começo de qualquer outro mundo."
Lisboa, 2004


















